O verão de Sam

Brasil, São Paulo, 21 de dezembro de 2016.
Temperatura à sombra: 42º.
Sensação térmica debaixo do chuveiro frio: 92ºC.

Aquele era mais um verão que se mostrava o pior dos últimos 100 anos.
Aliás, a cada novo dezembro, os jornais anunciavam a mesma velha notícia: o pior verão de todos os tempos.

Na rua, qualquer papel de bala atirado ao vento permanecia estático, como em uma pintura. As folhas não rolavam, os fios soltos dos cabelos não se mexiam. Nada. Nem mesmo uma vaga impressão de brisa para acalmar nossos corações.

As pessoas – as poucas que bancavam tamanho desafio – percorriam as ruas como se hipnotizadas, mexendo papéis na tentativa vã de produzir alguma movimentação de ar. Guarda-chuvas se tornaram guarda-sóis.

Da janela de casa observava o ir e vir daqueles que seguiam como robôs para seus destinos. Eu estava mais para cadáver, um corpo estirado, ora no sofá, ora na cama. Sempre acompanhada do ventilador.

O problema é que apesar de quente, sentia fome. E a fuga do sol não pode mais ser levada adiante.
Precisava ir ao supermercado.
Sorvete, salada… Quem sabe algumas frutas para um suco gelado. Qualquer coisa que matasse a fome e frio.

Vesti a roupa mais fresca, acompanhada de chinelos e guarda-chuva/sol e me uní aos robôs da janela.
Cinco quadras e estaria no ar-condicionado; só cinco quadras. Vamos lá!

Enquanto esperava para pesar as frutas, via, ao redor, os poucos insanos que tiveram a mesma ideia que eu.
O sol castigava tanto que nem mesmo a possibilidade de passar algum tempo no corredor dos laticínios parecia atraente.

Não tinha pressa, olhei cada item com paciência e boa vontade, especialmente frios, carnes econgelados.

Ali, entre o freezer de pizzas e de batatas fritas, algo me esperava.
No início era só um garoto alto – com um bom porte físico, confesso – camiseta branca, bermudas e um chinelo curiosamente feminino.
Segui observando ao mesmo tempo em que gelava a bunda no filé de tilápia congelado.

Aquela cabeça com cabelos escuros se virou na minha direção. E, em um breve momento de consciência, percebi que estava descabelada, com resto de rímel embaixo dos olhos, o vestido que usei no meu aniversário de 12 anos e o chinelo do meu pai. Sem falar no tom de pele brilhoso em todo o meu corpo.
Ótimo!

Esse rosto… Ai meu Deus! Não! Não!
O Arthur aqui?! Hoje?!

Pausa para explicação:
O Arthur é um daqueles assuntos mal resolvidos na vida de alguém, sabe?

Fui apaixonada por ele praticamente toda a minha vida e, como você pode imaginar, tivemos algumas histórias. Várias histórias; e a última foi especialmente dramática.

Era agosto de 2012 e estávamos na casa de um amigo em comum, bebendo, jogando cartas e falando sobre aqueles que não estavam presente.

Nossa relação sempre foi bem amizade colorida, de tempos em tempos não resistíamos à tentação e perdíamos algumas horas juntos.
Aquela parecia ser uma noite em que isso se repetiria.

Tequila vai, tequila vem a conversa foi ficando interessante e decidimos – estávamos em 8 pessoas – brincar de Verdade ou Consequência.

Nosso jogo tinha regras especiais e cada um que era premiado com o bico da garrafa tinha que, além de pagar a prenda ou responder uma pergunta, tomar um shot de tequila.

A brincadeira foi esquentando. E esquentando…

Na sétima vez em que a garrafa ficou virada para mim eu já não estava mais muito… hã… .
E a invejosa da Mila sacou isso.
E lá veio a pergunta que nunca deveria ter sido feita.
– Qual transa você apagaria da memória?
E, adivinhem só? Eu respondi. Eu tinha que responder, era o jogo!
Mas, eu poderia ter mentido. Só que não.

As palavras saíram antes de eu abrir a boca.
– Ah essa é fácil! O Arthur!
E pra explicar bem, com riqueza de detalhes (não gosto de deixar as coisas pouco claras): Tipo café sabe? Frio, fraco e fedorento!

Preciso dizer como nossa amizade virou preto e branco?

E aquela tórrida tarde era a primeira vez em que nos víamos desde então.
Ou melhor, eu o vi. Ele fez de conta que não.

Passou na minha frente – lindo – e me ignorou.
Garoto rancoroso.

Passei em outro corrredor para comprar o último produto do dia e, em homenagem ao Arthur, o suco foi substituído por um café. Desta vez, forte, cheiroso e com gelo!

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